Cuidar: ajudar o outro a crescer

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Cuidar: ajudar o outro a crescer

Tenho discutido sobre a importância do cuidar de si e do outro, em uma perspectiva humanista. Esta discussão se aplica em campos os mais diversos como tecnologia, saúde e educação.

Trata-se aqui da importância ética da dimensão do cuidado, do cuidado com o outro, de reconhecer-se no outro como ser humano pleno e cheio de possibilidades de crescimento, de estar juntos, sem dependências.

Esta ética do cuidado, presente quando um pai ou mãe cuida do desenvolvimento do seu filho para que ele tenha uma vida plena, autônoma e feliz pode ocorrer também com diversas outras relações: entre pessoas (famílias, amigos, professor-aluno, terapeuta-paciente, trabalho) mas também na relação de uma pessoa com uma ideia, projeto ou coletivo.

Mito do Cuidado

Cuidar, neste sentido, é sobretudo ajudar o outro a crescer, a ser ele mesmo em toda sua potencialidade. O Cuidado é fundamental para a existência e as relações humanas de forma geral, e vem sendo objeto de discussão ao longo de séculos. Transcrevo a seguir um trecho referente ao “Mito do Cuidado”, para compreensão da importância deste conceito.

“Um dia, quando Cuidado pensativamente atravessava um rio, resolveu apanhar um pouco de barro e começar a moldar um ser, que ao final apresentou a forma humana. Enquanto olhava para sua obra e avaliava o que tinha feito, Júpiter se aproximou. Cuidado pediu então a ele, para dar o espírito da vida para aquele ser, no que Júpiter prontamente a atendeu. Cuidado quis dar um nome àquele ser, mas Júpiter, orgulhoso, disse que o seu nome é que deveria ser dado a ele. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam, Terra surge e lembra que ela é quem deveria dar um nome àquele ser, já que ele tinha sido feito da matéria de seu próprio corpo—o barro. Finalmente, para resolver a questão os três disputantes aceitaram Saturno como juiz. Saturno decidiu, em seu senso de justiça, que Júpiter, quem deu o espírito ao ser, receberia de volta sua alma depois da morte; Terra, como havia dado a própria substância para o corpo dele, o receberia de volta quando morresse. Mas, ainda disse Saturno, “já que Cuidado antecedeu a Júpiter e à Terra e lhe deu a forma humana, que ela lhe dê assistência: que o acompanhe, conserve sua vida e lhe dê o apoio enquanto ele viver. Quanto ao nome, ele será chamado Homo (o nome em latim para Homem), já que ele foi feito do humus da terra”

O “Mito do Cuidado” tem sua autoria atribuída à Higino, nascido antes de Cristo, escravo egípcio do imperador romano César Augusto, depois diretor da Biblioteca Palatina em Roma.

O cuidar concentra-se no processo do cuidado, de estar junto, de ser solidário e capaz de sentir a dor do outro, afetar-se, de dar-lhe a mão para que o outro se desenvolva. O cuidado, como humanos, nos acompanha por toda a vida, sem “ela” – talvez o cuidado seja uma atitude da dimensão do feminino – não há vida possível.

O cuidado não passa pela pretensão de transmissão de informação ou de técnicas para o outro, não significa dominação ou controle, o cuidado, em outro sentido, busca desenvolver a autodeterminação das pessoas, para que sejam cada vez mais autônomas, decidam sobre seus valores e experiências e sobre seu próprio aprendizado, tratamento ou caminho de vida.

Em uma relação de cuidado, por exemplo, de um professor que cuida, o outro, neste caso, o estudante é o centro da atenção, seu crescimento, sua aprendizagem, suas escolhas neste processo são o mais importante. O professor deve estar focado no estudante, mais do que em si próprio.

Cuidar de si para cuidar do outro

Ao cuidar do outro, ao ajudá-lo a crescer, o professor também aprende e cresce, sem que isso seja uma relação de troca ou dominação, mas essencialmente de cuidado. Neste sentido, aquele que cuida, o professor, está em sintonia, está junto, com aquele que aprende.

Um fato interessante sobre a relação de cuidado, tanto de um terapeuta que cuida da saúde seu paciente, quanto de um professor que cuida da aprendizagem de seu aluno, é a importância da prática do auto-cuidado. É preciso compreender as necessidades de crescimento de si mesmo, cuidar de si, para ser capaz de conhecer as necessidades de crescimento do outro.

Para cuidar da aprendizagem de um aluno é preciso estar com ele em seu mundo, mais do que ficar apenas do lado de fora. É claro que o professor/educador não perde sua individualidade, mas é capaz de sentir o mundo de cada aluno e ajudá-lo a crescer. Cuidamos de outra pessoa ao encorajá-lo, inspirando e desafiando a ser ele mesmo. Ao confiar no outro o encorajamos a também confiar nele mesmo. Neste sentido, o oposto ao cuidado, é a desconfiança, o abandono, a indiferença.

O Cuidado não é sempre agradável; ele é algumas vezes frustrante e raramente fácil.

Por meio do cuidar e de ser cuidado o homem experimenta ser parte da natureza. Nós nos aproximamos de uma pessoa ou de uma ideia quando a ajudamos a crescer.

Milton Mayeroff, On Caring.

Embora a dimensão do cuidado seja elemento fundamental para uma aprendizagem humana, e para a própria vida, não significa que seja fácil praticá-la. Por isso, mais que um resultado esperado, o cuidado é um processo, uma atitude, um compromisso e um valor a ser posto em movimento nas relações de vida e trabalho.

A dimensão do cuidado ocorre pela presença do educador em acompanhar a trajetória dos estudantes, em fazer parte de um processo de aprendizagem o mais enriquecedor possível, e também, no desenvolvimento de estratégias de ensino que incentivem a aprendizagem em pequenos grupos, solidariedade, ajuda-mútua e a colaboração entre os estudantes, apenas para citar alguns exemplos, para que cada um e todos alcancem seus objetivos de aprendizagem.

Para saber mais detalhes sobre os ingredientes do cuidado em sala de aula, clique aqui.

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