Educação Digital Humanizada (EDH) em tempos de pandemia e isolamento social

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Educação Digital Humanizada (EDH) em tempos de pandemia e isolamento social

Professores e alunos podem mais do que tentar transpor os conteúdos da sala de aula para o ambiente digital.

No campo da educação, a pandemia do COVID-19 trouxe ao mundo a necessidade urgente de pensar alternativas de ensino-aprendizagem para quase 1 bilhão de crianças, jovens e adultos que encontram-se em casa, impedidos de frequentar instituições de ensino em todo mundo.

A internet e o acesso às redes sociais surgem para muitos como melhor alternativa para manter o contato social e a educação escolar (ou formação universitária) em dia.

Este texto procura oferecer aos professores, estudantes e familiares uma análise sobre as possibilidades e sugestões de utilização da internet para fins educativos.

Sete horas online todos os dias

O número de pessoas que acessam a internet tem crescido quase 10% ao ano e hoje já são mais de 60% das pessoas no mundo com acesso, e que passam em média quase 7 horas online todos os dias. Infelizmente, em nosso mundo repleto de desigualdades, a qualidade e o acesso à internet tem criado ainda mais disparidades. Na Europa, por exemplo, 84% das pessoas acessam a rede, enquanto na Africa este percentual é de apenas 34% (https://wearesocial.com/digital-2020). O acesso à internet precisa ser expandido, democratizado e defendido como direito humano fundamental, pois a desigualdade no acesso e na qualidade do acesso (velocidade, estabilidade etc) fazem aumentar as desigualdades também de formação, emprego, informações, oportunidades etc. Obviamente a ampliação do acesso não traz apenas aspectos positivos, mas também uma série de desafios de como lidar com a sobrecarga e velocidade de informações, ansiedade, manipulação e propaganda em larga escala, apenas para citar alguns exemplos.

Ensino versus Aprendizagem

Do ponto de vista da educativo, a internet, mesmo com diferenças regionais de acesso, não pode ser esquecida. Suas potencialidades e usos educacionais são enormes e em situações como as que estamos vivendo, ganha ainda mais importância.

Mas é preciso aqui distinguir três grupos de necessidades gerais bem diferentes. De um lado, a estrutura de ensino formal, com escolas, faculdades, secretarias de educação e demais instituições, chamado aqui de grupo do ensino, de outro lado os alunos (crianças, jovens e adultos), suas necessidades humanas de aprendizagem e socialização, o grupo da aprendizagem, e no meio disso, o grupo dos professores!

No primeiro grupo, existem instituições ou redes de ensino que já possuem plataformas online de educação e terão que agora utilizá-las de forma intensiva, para 100% do seu público de professores e alunos: um grande desafio. E existem aquelas, em sua maioria, que não adotaram nenhuma plataforma online e que terão que começar agora, nestes casos o desafio é ainda maior. Este grupo, que em ambos os casos precisa de ajuda, será objeto de discussão em outro texto.

No segundo grupo, das crianças, jovens e adultos impedidos de frequentar presencialmente suas instituições de ensino, fica a vontade de continuar a aprender, e também, não menos importante, de socializar. Afinal, nós seres humanos, somos sociais por natureza, necessitamos de interação, de olhar, de sentir. A dificuldade deste grupo, é que muitos alunos estão acostumados a “consumir passivamente” conteúdos nos estabelecimentos de ensino. Muitos pensam mesmo depender da escola ou da faculdade para aprender! E questões humanas de socialização, interação, cooperação, solidariedade, embora não estejam formalmente nos currículos, surgem no convívio humano – impedido fisicamente neste período.

E agora o grupo dos professores. Trabalhadores cujo nobre ofício é cuidar da aprendizagem dos alunos, mas que normalmente se concentram em escrever no quadro ou falar sobre conteúdos de sua área de especialidade – concentram-se no ensino do que professam, ao invés da aprendizagem de seus alunos. Na ausência de quem os escute, os professores perdem o chão, ou como se diz no jargão da sala de aula, “na falta dos alunos, considera-se matéria dada!” O problema aqui é: para quem dar a matéria? E mais, a pretensão de transmitir conteúdos (mesmo que isso fosse possível presencial ou à distância) não supre a necessidade de socialização promovida pelo convívio humano, ausente dos currículos. E digo isso por quê? Porque professores e alunos podem mais do que tentar mecanicamente transpor os conteúdos da sala de aula para o ambiente digital, online.

Humanizar é preciso e urgente

Em tempos como esse, forçados ao isolamento social, é que sentimos na pele a importância da humanização e do cuidado uns com os outros. Sentimos a interdependência da humanidade: o que afeta a um afeta a todos.

Toda a crise traz dentro de si a semente da transformação, o abalo causado é a oportunidade de uma nova conformação, diferente do modo de ser anterior.

Direto ao ponto

O que propomos, de forma prática e direta, é que estudantes e professores possam assumir seu protagonismo utilizando os princípios e práticas da Educação Digital Humanizada (EDH).

Quando me refiro a professores e estudantes, da mesma forma, é porque ambos, juntos ou não, podem ter iniciativas e utilizar ferramentas online adequadas. Um aluno (ou professor) pode criar uma sala de aula virtual, colocar links interessantes e abrir um fórum para debates, e inclusive convidar o professor (demais alunos) a participar.

A EDH tem por princípios a utilização da internet para a aprendizagem centrada no estudante, considerando cinco conceitos chaves: Dimensão do cuidado; Diálogo colaborativo; Liberdade criativa; Autoria narrativa; e Problematização da realidade.

Não basta migrar o presencial para o online, é preciso humanizar a educação, agora mais que nunca. Transformar a Educação online em um instrumento de aprendizagem social e de socialização humana, de afeto, de cuidado e ajuda mútua, de colaboração, de resolução de problemas em comum, de diálogo, de liberdade e autoexpressão.

Estudantes e professores estão convidados a terem iniciativa, aproveitando parte de seu tempo em casa para:

  • Criar um grupo no Facebook e convidar a todos para participarem;
  • Criar um grupo do WhatsApp ou Telegram e incluir todos os que puderem;
  • Criar um blog em um dos muitos serviços gratuitos e convidar a todos para escreverem;
  • Criar um podcast (canal com gravações de áudio – sua voz) online;
  • Criar um canal do youtube e incluírem vídeos sobre reflexões, aprendizagens, dificuldades e conteúdos de interesse que possam ajudar a outros;
  • Criar um quizz (teste rápido) online com conteúdos e comentários;
  • Criar uma sala de aula virtual gratuita com fórum de debates e conferência de vídeo em tempo real onde todos possam interagir;

O importante é aproveitar as ferramentas virtuais existentes, em sua maioria gratuitas e convidar a todos (colegas, professores etc) para participar de atividades que possam ser feitas em conjunto por todos. Testem e utilizem uma ou mais ferramentas de interação, de preferência ferramentas que possam ter atividades simultâneas (síncronas) como chat, live ou vídeo conferência (tempo real) e outras que tenham atividades que as pessoas possam acessar em diferentes horas do dia (assíncronas) como fórum de debates, grupo do Facebook etc.

Gravem áudios, vídeos, expressem suas opiniões, se vejam online, conversem, humanizem a aprendizagem, discutam problemas, marquem um chat ao vivo, uma live e vejam em que medida os conteúdos e a pesquisa podem ser úteis para aprender e ensinar. Estudantes podem e devem ter iniciativa de aprender, com ou sem os professores, e professores podem assumir seu papel importante de cuidar da aprendizagem de forma humanizada, incentivando a autonomia, criatividade e liberdade dos estudantes, evitando a sobrecarga de trabalhos e incluindo a todos.

* Em tempo, para mais informações sobre ferramentas diversas para ensino e interação online veja em http://bit.ly/quicktechguide (em inglês).

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2 comentários

  1. […] e outros, tanto na educação formal quanto informal, para crianças, jovens e adultos. Leia algumas dicas práticas de como aprender e ensinar online. Para aprofundar, dois artigos abaixo que descrevem mais a fundo a EDH e seus cinco conceitos […]

  2. Avatar André disse:

    Muito interessante e direta a abordagem. Estamos trabalhando com estes objetivos diretamente no Zetesis. Vou passar a buscar inspiração com você Fábio. Vamos em frente!

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